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Os ecossistemas estão sob pressão devido aos altos níveis de consumo de materiais. O bem-estar subjetivo, buscado por outros meios que não as recompensas materiais, poderia dar uma contribuição importante para a sustentabilidade. Muitos estudos indicam que a atenção plena (mindfulness) contribui para o bem-estar subjetivo concentrando a mente no aqui e agora, dando origem a maior empatia e compaixão e facilitando o esclarecimento de metas e valores, permitindo que as pessoas evitem somente a contínua busca hedônica.

As pesquisas mostram que a prática de mindfulness tem efeitos positivos tanto para o bem-estar como para empatia e pode promover consciência em relação aos reais valores de cada um. Bem-estar, empatia e consciência sobre os valores pode levar a comportamentos mais sustentáveis. A promoção da prática da atenção plena nas escolas, locais de trabalho e em outros lugares pode contribuir para a adoção de modos de vida mais sustentáveis e saudáveis, contribuindo para o bem-estar e felicidade das pessoas.

A figura acima sumariza os principais elementos que podem exercer um papel neste ciclo, destacando a utilidade de enxergá-los como um todo inter-relacionado quando estamos discutindo sustentabilidade.

 Bem-estar Subjetivo

Ter uma saúde melhor e bem-estar é benéfico para nós mesmos e para as pessoas ao nosso redor. Além disto, o bem-estar pode impactar como nós enxergamos e desenvolvemos comportamentos sustentáveis. Por exemplo, stress, depressão e dor física podem fazer com que seja mais difícil ter preocupações mais sociais como mudança climática, perda da biodiversidade, pobreza, desigualdade ou racismo. Ao contrário, a atenção provavelmente se direcionará mais a problemas pessoais, negligenciando outras preocupações. Se as necessidades básicas não são atendidas, cuidar do meio-ambiente pode ser encarado com um “problema de luxo”.

Muitos estudos sustentam que mindfulness melhora as condições de saúde e bem-estar, como dor crônica, stress, ansiedade, depressão, imunidade e satisfação com a vida. Imagens de ressonância magnética de cérebros de meditadores sugerem que mudanças ocorrem em regiões associadas com as sensações, processamento cognitivo e emocional, aprendizado e tomada de perspectiva. As funções regulatórias das práticas meditativas têm impactos de longo prazo no cérebro e nos comportamentos. A meditação tem sido apontada como uma das maneiras mais efetivas de alcançar a felicidade e efeitos psicológicos positivos.

Por que a prática de mindfulness é tão benéfica em termos de felicidade e bem-estar?

As pesquisas também documentam efeitos positivos das práticas de bondade-amorosa no bem-estar.

  1. Ao aumentar a habilidade de estar engajado no momento presente diminui a infelicidade. Um estudo de Harvard demonstrou que uma mente que vagueia está correlacionada com menor felicidade, mesmo quando pensamos em tópicos emocionais neutros. Pessoas que podem estar no “aqui e agora” são mais felizes.
  2. Mindfulness parece aumentar a capacidade de empatia e compaixão, que podem melhorar as relações pessoais. Um estudo sobre meditação da bondade-amorosa descobriu que os praticantes recebem mais suporte social e desenvolvem melhores relações com os outros. Ter relações de suporte com amigos e familiares é um dos fatores mais importantes para se alcançar uma vida mais feliz.
  3. Mindfulness pode melhorar o bem-estar ao contribuir com um maior senso de clareza em relação aos próprios valores e para escolher comportamentos que são consistentes com estes valores. Os objetivos se tornam mais intrínsecos. O bem-estar pessoal é melhor atendido quando vai de encontro aos objetivos mais intrínsecos e autênticos, isto é, objetivos que são satisfatórios e significativos, enraizados nos valores principais. Alguns exemplos são crescimento pessoal, relacionamentos e comunidade.
  4. A prática de mindfulness é uma atividade que aparentemente reduz o fluxo da rotina hedonista. Um problema associado com o aumento de bens materiais e renda é que os efeitos no bem-estar subjetivo parecem ser de curto prazo. As pessoas logo se acostumam com este nível de prosperidade. Segundo Seligman, o fenômeno de habituar-se e adaptar-se às circunstâncias da vida é chamado “efeito da rotina hedonista”. Um aspecto interessante das práticas de mindfulness e bondade-amorosa é que estas técnicas de treino mental parecem ser capazes de desconstruir este efeito.

Algumas pesquisas demonstram que quanto mais você medita, melhor fica. Um estudo sobre a meditação de bondade-amorosa encontrou uma relação direta entre o tempo que as pessoas dedicaram para meditação e o aumento de emoções positivas. Em apenas 9 semanas, elas aumentaram três vezes. Por isso, a prática de mindfulness aumenta o bem-estar sem a necessidade de uso de muitos recursos materiais. Pode ser um exemplo do que O´Brien chama de “felicidade sustentável”, a busca da felicidade que não explora outras pessoas, o meio ambiente ou as gerações futuras.

Os estudos sugerem ainda que a felicidade está correlacionada com diversos comportamentos sustentáveis. Sabe-se que um comportamento pró-social pode aumentar o bem-estar subjetivo que por sua vez, encoraja maior comportamento pró-social, sugerindo a possibilidade de um loop de retroalimentação positiva.

Esta esperança de que a prática de mindfulness pode aumentar tanto o bem-estar e ser melhor para o meio ambiente, pode inspirar mais esperança, discussões sobre políticas sustentáveis e engajadoras.

Valores

Os valores são normalmente adotados do entorno pessoal, como família, amigos e o resto da sociedade. As propagandas exercem um papel nisto, nos convencendo que uma compra pode ser benéfica e que contribui para uma vida mais feliz. De forma criativa, promovem a obsolescência percebida, criando um desejo de substituir um produto existente com um novo, mesmo que o produto atual esteja servindo muito bem, infundindo consumo com sentimentos de valorização pessoal, liberdade, aventura e sucesso. Este condicionamento torna mais difícil a avaliação crítica e escolher exatamente o que tem valor para nós. Ao invés disto, podemos ser manipulados pelo o que acreditamos ser importante no momento, mas falhamos em refletir sobre o que é realmente importante no contexto das nossas próprias vidas.

Diversos estudos sugerem que pessoas que possuem apenas valores materiais e objetivos direcionados a conquistas, dinheiro, poder, status e imagem também tem atitudes mais negativas em relação ao meio-ambiente e menos propensas a comportamentos amigáveis ao ambiente. Dada a grande ênfase no materialismo e consumo na sociedade ocidental, é difícil resistir a esta influência, mas mindfulness pode ajudar a contrabalancear a adoção unicamente destes valores e promover consciência das possibilidades para um bem-estar pessoal que existe além da aquisição de bens materiais.

Mindfulness pode clarificar tornar mais claros os valores de uma pessoa, para que possamos redescobrir e escolher os valores que são mais verdadeiros para nós. O treino em mindfulness pode nos ajudar a estar mais conscientes dos processos mentais e menos receptivos à persuasão dos outros. Isto nos ajuda a distinguir entre necessidades e desejos e escolher de forma deliberada nosso estilo de vida. O foco em riqueza e consumo na sociedade pode contribuir para os sentimentos de discrepância entre o que nós temos, financeiramente, e o que queremos, alimentando uma redução de bem-estar subjetiva.

Empatia e Compaixão

Uma vida sustentável pode ser um imperativo moral e uma incorporação de valores como empatia e compaixão. Quando percebemos problemas ambientais como questões éticas eles passam a serem tratados por todos, como agentes políticos e morais.

Uma maneira de reconhecer a questão do clima como um imperativo moral seria aumentar a identificação com eles e a empatia pelas gerações futuras e pessoas morando em outros lugares. A empatia está associada a comportamentos pró-sociais e é um importante facilitador do altruísmo. Ela pode ser estendida a estranhos e membros de outras espécies e pode ser gerada a partir do processamento cognitivo, como imaginação e racionalização consciente. A compaixão pode sérum preditor de saúde psicológica e bem-estar, também promovendo comportamento altruísta e generosidade.

As práticas meditativas valorizam e cultivam estados transpessoais onde o senso de identidade vai além dos estados e personalidade individual para abranger aspectos mais amplos da vida e da humanidade. Os estudos mostram que a prática de mindfulness aumenta a empatia e compaixão nas pessoas, bem como a conexão percebida com outras pessoas e o mundo ao seu redor.

Comportamento que promove Sustentabilidade

As pesquisas recentes sugerem que nossos objetivos e a busca por eles, nossa motivação, desejos, vontades e ações nem sempre são o resultado de escolhas conscientes ou pensamentos voluntários. Muitas vezes são nossos hábitos e respostas automáticas disparadas pelo ambiente ou ações anteriores, que constituem muito da nossa vida cotidiana. As pessoas tendem a experenciar o mundo através de filtros cognitivos de natureza condicionada, autocentrada e habitual, que pode levar a imagens superficiais, incompletas ou com vieses da realidade.

O julgamento humano e decisões podem ser distorcidos por um conjunto de vieses cognitivos, perceptivos e motivacionais, mas as pessoas tendem a negar que tenham estes vieses. Embora o piloto automático possa ser benéfico em algumas circunstâncias, também pode ter diversos efeitos indesejáveis no indivíduo, por exemplo relacionados a saúde e bem-estar, pois os comportamentos habituais  podem não ser suscetíveis a ajustes sustentados por pensamentos racionais e reflexivos. Podem também resultar em uma percepção seletiva, onde somente alguns aspectos de uma situação diretamente ligados aos nossos objetivos e atividades são reconhecidos às custas de aspectos que podem ser importantes para a comunidade maior a que pertencem.

Entretanto, mindfulness e a maior consciência dos nossos estados mentais podem reduzir os hábitos emocionais e cognitivos, promovendo um modo de ser não-habitual/não-automático que é mais flexível e baseado em informações objetivas. Ao invés de observar a experiência através dos filtros das nossas crenças, premissas, expectativas e desejos, mindfulness envolve a observação direta de vários objetos como se fosse a primeira vez.

Mindfulness também tem sido relacionado a um maior autocontrole, que pode ser benéfico em situações onde precisamos fazer escolhas entre comportamentos sustentáveis e comportamentos tentadores não sustentáveis. Neste contexto de atividades relacionadas à saúde física, descobriu-se que a prática de mindfulness facilita o caminho da intenção para a ação, sugerindo que mindfulness tem um papel fundamental em promover a autorregulação. Como mindfulness reduz a automaticidade e promove valores pró-ambientais, compaixão e maior autocontrole, este treino mental pode levar a comportamentos mais sustentáveis. Mindfulness pode ser um antídoto ao consumismo e ajudar comportamentos ecologicamente responsáveis.

Os pesquisadores sugerem que uma consideração consciente dos seus estados internos e valores junto com um conjunto de valores orientados mais ao intrínseco do que ao extrínseco aparentemente ajudam tanto o indivíduo como bem-estar ecológico e comportamentos sustentáveis.

Conclusão

A rápida e crescente demanda por recursos resultou em uma substancial e irreversível perda de diversidade de vida na Terra. Haverá mais três bilhões de consumidores de classe média nos próximos 20 anos, que aumentará a demanda pelo consumo de recursos. Se bilhões de pessoas em todo o mundo tem somente valores materiais, fazendo que a sua felicidade esteja fortemente ancorada no consumo, será difícil alcançar a sustentabilidade. Será mais fácil se o bem estar for alcançado de formas menos dependentes do consumo. Mindfulness definitivamente pode contribuir para o bem-estar, contribuindo para uma forma de viver mais sustentável. As pesquisas indicam que mindfulness pode contribuir para comportamentos amigáveis ao meio-ambiente e sustentabilidade e que a promoção das práticas de mindfulness e bondade-amorosa nas escolas, empresas e outros locais podem constituir uma política pública positiva para todos, tanto do ponto de vista de bem-estar como de sustentabilidade.

Trecho de tradução livre do Artigo “Mindfulness and Sustainability”. Torgeir Ericson et all, Oslo, Abril 2014.

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